(*) Taciano Medrado
A memória política brasileira sofre de uma estranha amnésia seletiva. Hoje, militantes de esquerda tomam as ruas contra qualquer tentativa de anistia a adversários políticos.
O curioso é que, quando se abrem os arquivos históricos, a narrativa muda radicalmente de cor. Nos anos 70 e 80, a bandeira da esquerda era justamente a anistia — ampla, geral e irrestrita. Foi ela que permitiu o retorno de exilados, o perdão de crimes cometidos em nome da “luta armada” e a reintegração de lideranças que mais tarde ocupariam cargos de poder.
Se não fosse aquela generosidade, ou ingenuidade, do Congresso e do governo da época, parte dessa elite política sequer teria espaço na vida pública. Mas, convenientemente, a memória curta e o discurso seletivo tentam transformar o que antes foi uma “conquista democrática” em algo hoje condenável.
O episódio mais simbólico dessa contradição veio à tona pelas mãos do líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), que divulgou uma montagem: de um lado, Caetano Veloso em 1975 erguendo a placa “censura não, anistia sim”; de outro, o mesmo artista em 2025 defendendo “censura sim, anistia não”. “Uma imagem vale mais do que mil palavras! Esse é o comunista hipócrita, que gosta de ganhar milhões”, escreveu o parlamentar.
A incoerência, porém, não se restringe a um ícone da MPB. Em Copacabana, Caetano dividiu o palanque com Maria Gadú, Gilberto Gil e Chico Buarque. Em Brasília, Chico César engrossou o coro; em Salvador, Daniela Mercury fez o mesmo.
Contra-argumentos não faltaram: o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) resumiu a questão, “anistiados contra a anistia é hipocrisia”.
O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) ironizou: “nem com Rouanet vingou”. André Fernandes (PL-CE) atacou a falta de fôlego das mobilizações: “a esquerda sempre faz manifestações flopadas”.
Já o pastor Silas Malafaia criticou as tentativas de inflar multidões com fotos enviesadas: “Façam como nós, usem drones e mostrem a verdade”.
No fim, resta a fotografia grotesca da contradição: artistas milionários, sustentados por décadas de leis de incentivo, gritando contra aquilo que um dia os salvou da margem da história. Militantes que erguiam cartazes pedindo perdão, hoje erguem punhos exigindo punição. É o retrato perfeito da incoerência esquerdista, aqueles que só existem politicamente graças à anistia, hoje posam de juízes morais contra ela.
A história não esquece. Os arquivos permanecem. A esquerda pode cantar, berrar e encenar seus atos “culturais”, mas continuará marcada pelo carimbo indelével da hipocrisia.
(*) Professor e analista político
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