(*) Taciano Medrado
Olá carissimo(s) leitores(a)s,
Há 46 anos atrás, minha saudosa avó Honória Medrado, dentre inúmeros ensinamentos que me passou, um se destacava: a célebre frase: “Diga-me com quem andas e eu te direi quem tu és”. Na verdade a minha avó, no alto da sua sabedoria estava me orientando de como selecionar as minhas amizades e com que eu deveria me relacionar para não ter dores cabeça no futuro.
O ditado popular acima atravessa séculos e continua atualíssimo, principalmente no Brasil político, onde a escolha dos “companheiros de caminhada” revela muito mais do que discursos ensaiados em palanques.
Segundo o portal Metrópoles, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) dividiu palco com a mulher apontada como a principal responsável por comandar o tráfico de drogas do Primeiro Comando da Capital (PCC) na Favela do Moinho e as extorsões a moradores da comunidade, de acordo com o Ministério Público de São Paulo (MPSP).
Alessandra Moja e Yasmin Moja, mãe e filha, foram alvos de mandado de prisão na Operação Sharpe, deflagrada na manhã desta segunda-feira (8/9). Os promotores do Gaeco afirmam que, após a prisão de Leonardo Moja, o Leo do Moinho, Alessandra, irmã dele, teria ficado responsável pelo abastecimento de entorpecentes na região da Cracolândia.
Em 26 de julho, Lula e seus ministros estiveram na comunidade para anunciar o lançamento de um programa habitacional em parceria com o governo de São Paulo, com o objetivo de realocar os habitantes do bairro. Na ocasião, Alessandra e Yasmin Moja, representando a associação de moradores, foram convidadas a subir no palanque e cumprimentaram Lula.
“Esse dia vai ser histórico para a comunidade do Moinho, que em vez de a gente tomar tapa, bomba, tiro, a gente está recebendo o presidente da República na nossa casa”, afirmou Flávia Silva, porta-voz da comunidade, enquanto segurava a mão de Lula. Em seguida, agradeceu à sua equipe: “Yasmin, Alessandra, Janine. Somos quatro mulheres de orgulho para o Moinho”. Diante da plateia que gritava “mulheres unidas jamais serão vencidas”, Lula cumprimentou calorosamente Alessandra e Yasmin.
Em seu pronunciamento, o presidente aproveitou para celebrar o anúncio do programa habitacional e ainda criticar a associação dos movimentos sociais do Moinho ao crime organizado. “Na cabeça de muita gente da elite brasileira, pobre e gente que mora em favela é sempre considerado bandido”, disse Lula, em tom de reparação moral.
O programa, em parceria com o Minha Casa, Minha Vida e o Casa Paulista, promete crédito de R$ 250 mil para até 900 famílias adquirirem novas casas. Até aí, palmas para a política pública. Mas…
Aparece então o outro lado da história.
O Ministério Público de São Paulo afirma que o PCC teria aparelhado movimentos sociais ligados à Favela do Moinho, inclusive a Associação de Moradores, com o objetivo de proteger o território contra a atuação das forças de segurança. Além do tráfico, Alessandra Moja também estaria envolvida em extorsões a moradores que aceitaram acordos de realocação.
Ironia das ironias
Enquanto o discurso presidencial tentava dissociar pobreza de criminalidade, o palco revelava justamente a simbiose entre poder político e figuras que o próprio Ministério Público acusa de gerir os tentáculos do PCC. O que era para ser uma “festa democrática” se transformou em uma fotografia que fala mais do que mil palavras.
No fim, a máxima popular não falha: quem escolhe andar de mãos dadas com a contravenção, dificilmente terá autoridade moral para ensinar lições de ética.
(*) Professor e analista político
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