Por Taciano Medrado
Recentemente, vi um vídeo de um show de um forrozeiro baiano, e uma imagem me surpreendeu. Afinal, por décadas ele tingia os cabelos e a barba, como quem quisesse manter eternamente a juventude estampada no rosto. Mas eis que, de repente, resolve assumir os cabelos grisalhos e — sabem de uma coisa? — ficou muito melhor! Curiosamente, sua imagem aparenta mais leveza e até certa jovialidade, apesar dos fios brancos. Como se, ao aceitar o tempo, tivesse finalmente feito as pazes com ele.
Vivemos tempos curiosos. Em meio a discursos prontos, selfies impecáveis e memórias cada vez mais curtas, há quem acredite ser possível enganar a todos. E, sejamos justos, até conseguem por um tempo. Mas há um juiz silencioso, implacável e absolutamente incorruptível diante de quem todos sucumbem: o tempo.
Enquanto os holofotes brilham, há quem tente reescrever o passado com a mesma habilidade com que manipula hashtags. Uns reinventam trajetórias, outros maquiam biografias. Há até os que, diante de um espelho complacente, acreditam ter parado no tempo — ou ao menos driblado seus efeitos. Pura ilusão.
É aí que mora a ironia. Enquanto alguns se desesperam tentando esconder o inevitável, outros, ao acolherem a passagem do tempo, parecem até mais autênticos — e, por que não, mais jovens. Talvez porque a sinceridade com o espelho ainda seja um dos melhores rejuvenescedores que existem.
O tempo, esse observador impassível, não se deixa levar por discursos nem por filtros. Ele registra tudo, até o que se tenta esconder. E, quando menos se espera, expõe. Exatamente como é. Sem retoques. Sem versões oficiais.
O mais interessante é notar como figuras públicas, líderes e personalidades vivem como se fossem eternos, imunes ao desgaste das escolhas e das incoerências. Esquecem que o tempo cobra com juros o que foi prometido e não cumprido. Que ele transforma verdades convenientes em mentiras deslavadas. Que ele é, no fim das contas, o grande editor da história.
Pode-se apagar postagens, reescrever falas, trocar de partido, de discurso e até de rosto. Mas o tempo permanece ali, paciente, esperando o momento certo de mostrar a fatura.
E quando o faz, não há argumento que convença, nem narrativa que o cale. O tempo não entra em debates — ele apenas revela.
Sim, é possível enganar muita gente por muito tempo. Mas o tempo… ah, o tempo, esse não se engana. Ele apenas observa. E ri. Por último.
(*) Professor e redator chefe
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