Cuide-se para cuidar!

 


Por: Teobaldo Pedro de Jesus*

Toda pessoa que cuida de alguém precisa igualmente ser cuidada. Muitos negligenciam isso e acabam pagando um alto preço. É o caso de quem cuida de idosos na família. Cuidar de alguém em idade avançada, especialmente quando há funções vitais comprometidas, representa um desafio diário que exige preparo físico, emocional e espiritual. Quando a visão se apaga, a audição falha, a locomoção se torna limitada, a fala vacila e a cognição declina, o cuidador passa a ser olhos, ouvidos, pernas, boca e memória daquele que antes sustentava a própria casa. Em muitos casos, essa perda de capacidades vem acompanhada de quadros de demência, que não apenas apagam o presente, mas também fazem o idoso regredir à infância, numa busca silenciosa por afeto, segurança e acolhimento.

É fundamental compreender que o cuidado exige equilíbrio. Ninguém pode cuidar de outro sem antes cuidar de si mesmo. Muitos cuidadores se esgotam tentando suprir todas as demandas sem perceber que seu próprio corpo e mente dão sinais de colapso. O cuidador precisa de descanso, apoio emocional, acompanhamento profissional e um espaço espiritual para renovar suas forças. Cuidar de quem depende inteiramente de nós exige que estejamos minimamente inteiros. Negligenciar esse cuidado consigo mesmo compromete a qualidade do cuidado oferecido e a saúde de ambos.

Existe ainda um aspecto delicado e pouco discutido que é o ganho secundário. Alguns idosos, sentindo-se ignorados ou esquecidos, inconscientemente prolongam sintomas, recusam alimentação ou se mostram mais frágeis do que realmente estão, em busca de atenção e manifestações de afeto. Isso não é uma manipulação consciente, mas uma forma humana e inconsciente de clamar por amor. Desejam ser vistos, tocados e valorizados. O cuidador sensível percebe esse chamado e responde com carinho, não com frieza ou repreensão. Às vezes, quando dizem “quero morrer”, na verdade estão dizendo “quero ser ouvido”.

Com a perda da autonomia e da capacidade de contribuir para a família ou a sociedade, muitos idosos começam a sentir-se inúteis e até mesmo um peso. Quando esse sentimento se aprofunda, pode surgir o que chamamos ideação suicida passiva, um desejo de morrer que não necessariamente inclui planos ou ações concretas, mas que se expressa em frases como “minha hora já passou”, “não tenho mais razão de estar aqui” ou “só dou trabalho”. Segundo dados do Ministério da Saúde do Brasil, a taxa de suicídio na terceira idade é uma das que mais cresce no país, especialmente entre homens idosos. Isso exige atenção redobrada da família, cuidadores e comunidade. O que parece desânimo pode ser um pedido velado de acolhimento. Nem sempre o idoso quer a morte, ele deseja o fim da dor de ser invisível.

Apesar dos desafios, envelhecer com dignidade é possível. O ator Ary Fontoura, com mais de 90 anos, é um exemplo inspirador de lucidez, humor e vitalidade. Sua longevidade ativa demonstra que hábitos saudáveis, sentido de vida e bem-estar emocional podem preservar a dignidade mesmo com o avançar dos anos. Em contrapartida, há pessoas ainda na casa dos sessenta anos que já enfrentam doenças degenerativas como o Alzheimer, muitas vezes agravadas por décadas de ressentimentos não resolvidos, traumas reprimidos ou vidas vividas sem verdade. Um único desses fatores pode ser o estopim para a fragilização da mente. Por isso, envelhecer bem é um projeto de vida que começa cedo. Cuidar do corpo, sim, mas sobretudo da alma.

Está aí algo tão importante quanto cuidar do corpo e do espírito: cuidar da saúde mental. É afastar-se de tudo que é tóxico, evitar excessos e medições obsessivas, que minam silenciosamente a energia de viver. Sugiro viver a vida com leveza, esperança, fé em Deus e muita dedicação ao amanhã. Sonhar é preciso, envelhecer não é preciso, parafraseando o poeta. Mas se for para envelhecer, que seja só no corpo, no espírito jamais.


(*) Pastor, teólogo, educador, filósofo e psicanalista. Juazeiro Bahia

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