“Escolas, ginásios e CTGs [Centro de Tradições Gaúchas] viraram abrigos. As pessoas estão precisando de roupas, água, alimentos, colchões, e está cada vez mais difícil conseguir essas coisas. De forma trágica, é até engraçado que as ruas estejam cheias de água, mas a cidade toda não tenha água encanada.”
É
assim que Rhuama, jovem gaúcha, descreve a situação em que se encontra o Rio
Grande do Sul.
No
dia 30 de abril, Pedro, estudante de psicologia na Universidade Federal de
Santa Maria (UFSM), estava no ônibus a caminho da universidade e pronto para
mais um dia normal. Ele lembra que até estava prevista chuva, mas que não era
necessariamente algo surpreendente ou para se temer. Não demorou muito para que
ficasse claro que não seria o caso.
Chegando
na universidade, notou que a chuva estava mais “grossa” e que alguns canteiros
estavam alagados. Nesse momento, começou a receber várias mensagens, inclusive
da própria reitoria, pedindo para que as pessoas saíssem da universidade.
Ele
mora em Santa Maria, na região central do estado. Mas a família dele vive na
região metropolitana de Porto Alegre, também amplamente afetada pelas
enchentes, e precisou deixar sua casa: está desalojada. Por meio de Pedro,
fiquei sabendo de algo que me chocou: algumas pessoas estão se aproveitando da
calamidade para saquear casas, roubar e furtar.
Cabe
aqui uma analogia com a série americana The Walking Dead. Na série ficcional
tem-se um cenário apocalíptico em que há poucos humanos e muitos zumbis. Dado o
contexto, não há mais instituições ou leis e impera a luta pela sobrevivência.
Era de se imaginar que todos os humanos se juntariam e afloraria a empatia, mas
não: além de lidar com a calamidade do contexto (no Rio Grande do Sul, a
questão das enchentes), as pessoas ainda precisam lidar com os desvios de
caráter dos próprios seres humanos.
Mas,
assim como na série, ainda há pessoas humanas. Há uma incrível quantidade de
voluntários e de pessoas mobilizadas na causa do estado sulista. Não apenas a
nível regional, mas também nacional e, até mesmo, internacional.
Como
estão os estudantes gaúchos?
Muitos
foram afetados diretamente e tiveram que ser realojados, ou perderam a
residência e outros importantes bens de uma vida toda. Outros, foram
indiretamente afetados. Como assim? A ansiedade e a angústia em acompanhar de
perto tamanha tragédia não é trivial.
“Sou
gaúcha e moro em Viamão [na região metropolitana de Porto Alegre]. Nem sei ao
certo se tenho lugar de fala, pois, graças a Deus, não perdi nenhum familiar ou
minha casa. Mas acho que posso e devo falar sobre, pois existem diferentes
modos de impacto, e o meu é emocional e psicológico. Assim como muitas pessoas,
eu estou muito abalada, assustada e meu coração dói ao ver cada vez mais
relatos de mortes e de pessoas que perderam tudo que levaram uma vida pra
construir”, diz Isa, jovem gaúcha.
Já
Isadora, outra estudante do estado, diz: “sou da região metropolitana e minha
cidade foi bastante afetada. O que é noticiado na TV não chega nem perto do que
estamos vendo de verdade”. Sobre os estudos, ela comenta: “mal consigo pensar,
já que não tem como focar ou mesmo ler algo com barulhos de bombeiro,
ambulância e chuva sem parar”.
Elas
não estão sós. São mais de 1,6 milhão de jovens matriculados na educação básica
gaúcha. Estima-se que pelo menos 700 mil estudantes tenham ficado sem aulas
devido às chuvas e enchentes. Levantamento da Secretaria de Educação do RS
mostra que, até a noite de domingo, 2.338 escolas estaduais haviam sido
afetadas de alguma forma pelas chuvas. O governo suspendeu as aulas em toda a
rede estadual, que só serão retomadas gradativamente, primeiros nas regiões
menos afetadas. Vários municípios também cancelaram as aulas.
É
urgente já começarmos a traçar um plano estratégico para a educação gaúcha e
para os estudantes de lá. Entendo que, neste momento, em um cenário em que
escolas se tornaram alojamentos, a prioridade não sejam as aulas ou a
preocupação com os conteúdos. Há, de fato, preocupações mais urgentes.
No
entanto, precisamos aprender com os erros da pandemia. Naquela época, em vários
momentos, houve uma negação da problemática e tentativas forçadas de aplicar
uma normalidade onde simplesmente não cabia. Era um abre e fecha, aula e não
aula, presencial ou online e faltou um plano mais sólido. O resultado? Impactos
até hoje. Algumas universidades, ainda hoje, não conseguiram regular os
semestres e criou-se uma grande lacuna na aprendizagem dos alunos da educação
básica e do ensino superior.
No
Rio Grande do Sul, há impactos em diferentes esferas nos estudantes e,
consequentemente, na educação. Impactos que ainda estão sendo acumulados.
Portanto, há, sim, uma dificuldade em fazer planos. Alinhado a isso, entendo
que há um instinto pela volta à normalidade, mas ela não pode ser restrita à
recuperação estrutural e de bens, mas também estendida para a recuperação em
termos de saúde mental e de aprendizado.
É
necessário que a Secretaria de Educação do estado e o Ministério da Educação
(MEC) já comecem, caso ainda não tenham, a desenhar políticas que considerem o
impacto que o desastre atual teve sobre a educação.
Em
relação à primeira, como será o retorno às aulas? Como será a adaptação do
currículo tendo em vista as semanas que muitos colégios já ficaram e possivelmente
ainda ficarão sem aula? Qual o plano em relação ao suporte para a saúde mental
dos estudantes, professores e gestores?
Já
em relação ao ministério, os jovens gaúchos farão o Exame Nacional do Ensino
Médio (Enem) no mesmo dia que o resto do país? Entendo que num exame como esse
há uma complexidade de logística e que mudar datas deve ser sempre uma última
opção. Neste caso, acho que não é exagero pensar em uma cota extraordinária
para os estudantes do Rio Grande do Sul nos programas que utilizam a nota do
Enem. Precisa haver uma forma de incorporar nos processos políticas que atenuem
tudo o que já viveram e ainda irão viver.
Entendo que as questões elencadas não sejam a maior prioridade neste momento, mas é muito importante que instituições e equipes já sejam alocadas para começar a pensar sobre. Negar um problema nunca é a melhor solução.
Vozes
da Educação é uma coluna semanal escrita por jovens do Salvaguarda, programa
social de voluntários que auxiliam alunos da rede pública do Brasil a entrar na
universidade. Revezam-se na autoria dos textos o fundador do programa, Vinícius
De Andrade, e alunos auxiliados pelo Salvaguarda em todos os estados da
federação. Siga o perfil do Salvaguarda no Instagram em @salvaguarda1
Este
texto foi escrito por Vinícius De Andrade e reflete a opinião do autor, não
necessariamente a da DW.
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