(*) Marli Gonçalves
Se
bem que é mais papai, porque lá pelo Supremo Tribunal Federal a gente
infelizmente só tem duas mamães, entre os onze que compõem a sua formação, Rosa
Weber, a presidente que está para sair, obrigada, vai fazer 75 anos, e Cármen
Lúcia. São eles que vêm traçando os destinos não só da Nação, como também os
nossos em muitas questões comportamentais.
Que
a gente acha até que um dia vai abrir o box do chuveiro e encontrar um deles
determinando algo, pode ser, tanto têm feito. Que o STF tem passado do ponto em
muitas coisas, criando encrencas, falando verdades e exagerando outras, nos
garantindo, mas batendo nas nossas mãos com palmatórias, tentando regular muito
mais do que as próprias pernas, e por isso sendo atacado pesadamente por
extremistas dessa divisão burra – necessário dizer. Claro que é preciso estar
atento e forte, porque muitas decisões que hoje aplaudimos efusivamente de
alguma forma podem num futuro se voltar contra nós, se o tempo fechar. É
preciso expressar isso claramente para o horror da esquerda. Que há limites,
especialmente para o “mandou prender”, “mandou tirar do ar”, entre outros, que
fique claro.
De
outro lado, ultimamente eles parecem muito mais próximo de nós, pobres mortais,
do que eram num passado ainda, pode-se até dizer, recente. O que se acelerou
durante o governo passado, quando em inúmeras vezes nos salvaram das mãos da
ignorância e do autoritarismo reacionário e conservador de extrema direita que
ainda hoje teima em se criar e nos aborrecer aqui e ali. Um dos ministros,
Alexandre de Moraes, o que mais tem se destacado, a ponto de ganhar apelido
popular, Xandão, e memes engraçados, usados em conversas nas redes, para o bem
e para o mal, de um lado e de outro das questões discutidas.
Só
nessa semana tivemos duas notícias de lá daqueles lados onde tudo tem indo
parar. A primeira é até ridícula que ainda estivesse sendo discutida em pleno
agosto de 2023, a tal legítima defesa da honra, a tese utilizada em casos de
feminicídio ou agressões contra mulher buscando justificar o comportamento do
acusado. Carimbada agora como inconstitucional, por unanimidade. Ufa!
A
segunda notícia foi um voto até histórico do Xandão em um julgamento que ainda
vai dar muito pano para a manga – seria ao fim uma questão de descriminalização
da maconha, do uso recreativo da cannabis. O julgamento está em 4 favoráveis a
zero. Já votaram a favor, mas com divergências pontuais, os ministros Gilmar
Mendes, Edson Fachin e Luis Roberto Barroso. Mamãe Rosa Weber suspendeu a
votação por enquanto, isso porque Gilmar Mendes acha que a coisa deveria ser
mais completa, para outras drogas. No caso, se discute o porte: quanto seria
legal? Quanto seria tráfico? Segundo Xandão, além de apontar o racismo, mais
negros que brancos presos, usuário seria “quem adquirir, guardar, tiver em
depósito ou trazer consigo de 25 a 60 gramas de maconha ou seis plantas
fêmeas”, bem explicadinho assim. Gritaria geral, com esse Congresso esquisito
querendo ser ele a instância a decidir. Falam até em plebiscito.
Enfim,
o que vem ao caso é como tudo agora passa ali pelo plenário do STF, por conta
disso mesmo tão destruído simbolicamente durante a raivosa invasão dos
bolsonaristas em 8 de janeiro. Os ministros continuam mantendo presos muitas
vezes quem roubou um bife, um shampoo. Mas saiu dali também a liberação de com
quem casamos, uniões estáveis, homoafetivas, e logo estará sobre a mesa uma
questão importantíssima, fundamentalmente ligada às mulheres: o aborto, e as
condições para sua liberação, aliás leis e normas que há anos são soterradas
pelos parlamentares que fogem do tema, literalmente, como o diabo foge da cruz,
por envolver questões religiosas. Mais uma hipocrisia nacional tentando ocultar
a realidade, assim como a questão da maconha.
Só
que até há pouco estavam dez ministros votando, e chegou agora o 11º, o pálido
e indecifrável Cristiano Zanin, indicado por Lula, e de forma bastante
discutível. Uma tristeza, por ser agora o mais jovem entre todos lá, aos 47
anos, já chegando como conservador, como se definem os que não querem mudar
nada, nem mexer em vespeiros. Para ser aprovado nas sabatinas até respondeu a
perguntas sobre casamento homoafetivo, legalização do aborto e
descriminalização das drogas, se apegando à Constituição e no papel do
Congresso, que conhecemos bem qual é na discussão dos temas. Ficou na corda
bamba.
No
país machista, de poder predominantemente masculino, onde as ministras de
governo cantadas em verso e prosa estão sempre citadas primeiro em listas de
trocáveis por acordos políticos, o que vai acontecer de agora em diante? Logo,
em poucos meses, Rosa Weber sai, vão virar dez ministros de novo, e caberá a
Lula mais uma indicação para completar o quadro tão irregular, já contando com
os dois homens terrivelmente indicados por Bolsonaro.
Será
o nome de mais um papai? Mais uma mamãe, uma mulher que tanta falta faz por
ali? Precisamos ficar atentos a essa família que vive passeando em nossas
casas.
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