Shabbos Negmatulloev, do
Tadjiquistão, e Silab Nouri (azul), do Afeganistão, no Campeonato Asiático,
abril de 2021 (Foto: reprodução/YouTube)
Da Redação
Um
grupo de nove boxeadores da equipe nacional do Afeganistão está na Sérvia e se
recusa a retornar a seu país natal por medo do Taleban. Os atletas viajaram
para disputar o Campeonato Mundial de Boxe e, mesmo com os vistos vencidos, não
querem deixar a Europa, segundo a Radio
Free Europe.
“A
situação atual no Afeganistão está completamente confusa. Estamos testemunhando
atentados suicidas, explosões e assassinatos seletivos todos os dias lá”, disse
o boxeador Silab Nouri, que junto de seus colegas de equipe aguarda a concessão
de visto humanitário ou asilo por algum país europeu.
Segundo
o boxeador, além do medo da repressão,
eles entendem que suas carreiras, seja no esporte ou em outra área, será
irremediavelmente prejudicada no Afeganistão. “Não podemos progredir em termos
de esporte ou educação lá”, afirmou. “Estamos esperando na Sérvia até que
possamos mudar para um país onde nossa futura atividade atlética e nossa educação sejam
garantidas”.
Hasibullah
Malikzada faz coro com o colega de equipe. “Depois que o Talibã chegou, não
podíamos continuar lutando boxe”, disse o campeão nacional amador do peso leve,
que diz temer pela vida caso volte ao Afeganistão. “Esperamos receber vistos de
países europeus para o bem do nosso esporte e de nossas vidas. Se o Taleban nos
encontrar, nos matará. Só quero ser campeão. Eu realmente quero isso, é meu
sonho”.
Malikzada
explica que, mesmo que ele consiga o asilo, seus familiares estarão ameaçados,
vez que alguns deles tinham relação com o antigo governo afegão deposto pelos
talibãs. E conta que o irmão se juntou à resistência do Vale do Panjshir, a
norte de Cabul, uma milícia armada formada por ex-soldados e outros combatentes
que se uniram para enfrentar o Taleban.
Waheedullah
Hameedi, secretário-geral da Federação de Boxe do Afeganistão (ABF, da sigla em
inglês), conta ter recebido inúmeros conselhos para não retornar. E a própria
história dele vale como alerta, vez que o pai, antigo gestor da federação e de
quem herdou o posto, foi morto pelo Taleban em 2019 por recrutar mulheres para
o esporte. Agora, Hameedi gasta seu tempo em contato com outros países a fim de
encontrar um disposto a receber os boxeadores.
Contrariando
o temor dos atletas, e mesmo as ações
violentas do grupo desde que assumiu o poder, o Taleban diz que os
atletas não correm perigo caso retornem ao país. A garantia partiu de Dad
Mohammad Nawak, o principal oficial de informação do Taleban no Comitê Olímpico
Afegão (ANOC). Segundo ele, o grupo radical já “provou ser um forte apoiador do
esporte”, e a segurança dos atletas estará garantida em solo afegão.
Por
que isso importa?
Centenas
de atletas e gestores de entidades desportivas afegãs fugiram do país desde o
dia 15 de agosto, quando o Taleban derrubou o antigo governo e assumiu o poder.
Os radicais chegaram a afirmar que não proibiriam nenhuma modalidade, desde que
essas obedecessem à sua interpretação da lei islâmica. Mas não há uma regulamentação
oficial, e os atletas que têm chance optam por fugir.
O
presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Thomas Bach, chegou a pedir
ajuda aos países afiliados para a evacuação de mais de 700 atletas que
permanecem no Afeganistão. “Ainda há muitos membros da Comunidade Olímpica no
Afeganistão que estão em risco”, disse ele.
“Mas,
para isso, precisamos do apoio do maior número possível de governos e comitês
olímpicos nacionais”, afirmou Bach. “Em muitos casos, só podemos retirá-los (os
atletas) se pudermos dar a garantia de que são bem-vindos com vistos
humanitários nos países”.
Entre
as modalidades atingidas pela repressão está uma das mais populares do país, o
taekwondo. Foi desse esporte que saíram as duas únicas medalhas olímpicas do
Afeganistão em sua história, dois bronzes conquistados por Rohullah Nikpai, em
Beijing 2008 e Londres 2012. As conquistas popularizaram o esporte
inclusive entre
as mulheres, mas o governo talibã as proibiu de treinar.
“Todas na seleção nacional de taekwondo sonhavam que um dia chegariam aos Jogos e hasteariam a nossa bandeira em outros países, em competições internacionais. Mas agora somos todas forçadas a ficar em casa, e ficamos mais deprimi
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