Por: Thais Roland
É hora de dar
uma pausa nas aventuras de garagem (mas não por muito tempo) para tratar de um
assunto que chegou via comentários da coluna. No post sobre troca de óleo, o
leitor Avila Reis pediu que falássemos sobre "troca de água" do
carro. Então lá vamos nós!
Como o foco aqui
é falar com iniciantes em manutenção automotiva, não acho prudente uma troca de
líquido de arrefecimento na garagem. É um procedimento mais trabalhoso do que
os que vimos até agora e precisa de cuidados bem especiais.
Antes de mais
nada, vamos parar de chamar de "sistema de refrigeração" ou
"água do radiador". Se fosse refrigeração daria para gelar a cerveja
no radiador, certo? E água do radiador usávamos na época dos carros carburados
(época linda, diga-se de passagem).
O nome correto é
sistema de arrefecimento, que refere-se a manter a temperatura ideal de
trabalho do motor - que é alta o suficiente para provocar queimaduras se
determinadas partes do motor forem acessadas ainda quentes.
E o que usamos
por lá é o fluido de arrefecimento, que é uma mistura de água desmineralizada e
aditivo - que tem vital importância, principalmente no aumento do ponto de
ebulição da água (ela ferverá acima dos 100°C) e no controle de corrosão do
motor, entre outros itens.
Carros com
injeção eletrônica não podem circular sem aditivo no radiador. Desde que esse
sistema substituiu os carburadores, permitindo uma melhor dosagem de
combustível e resultando em queimas mais completas, é muito comum os motores
trabalharem acima dos 100°C. Ou seja: andar só com água no motor é quase
garantia de superaquecimento em algum momento.
Além disso,
muitos carros tem partes de alumínio (inclusive o cabeçote) e, nesses casos,
colocar água de torneira no sistema é "cometer um assassinato", já
que o cloro reage e devora o alumínio. Daí a importância da água
desmineralizada (que é mais barata que a água mineral que você compra para
consumir).
Como qualquer
outro sistema, este precisa de manutenção preventiva que envolve substituição
do fluido e limpeza do sistema. Não é um procedimento complexo, mas é
trabalhoso e requer cuidados especiais que explicar a seguir - e vocês entenderão
porque recomendo que sejam feitos na oficina.
A primeira coisa
é, como sempre, consultar o manual do proprietário para saber a frequência de
manutenção. Dependendo do aditivo que o carro usa pode ser que você precise
trocar o fluido todo ano ou a cada cinco - e, quando essas manutenções
acontecerem, o tipo de aditivo deve ser respeitado, assim como a proporção
entre ele e água desmineralizada.
Quando chega a
hora de fazer esse procedimento, todo o fluido do sistema é esgotado e é feita
uma limpeza no sistema antes de abastecê-lo com mistura nova. A questão é que
este é um sistema que não permite que fique ar dentro dele.
Então, além da substituição, é importantíssimo
que o mecânico faça a "sangria" do sistema, que consiste em retirar
qualquer ar que esteja dentro do circuito de fluido e garanta que ele esteja
preenchido apenas com a mistura água desmineralizada + aditivo. Este processo
de sangria não é trivial e precisa ser realizado com muito cuidado e atenção.
Assim como o
óleo do motor, o descarte do aditivo antigo também é uma preocupação e precisa
ser feito de maneira correta. E aqui a recomendação é a mesma: recolher
corretamente e levar a oficina ou posto de gasolina para que eles descartem por
você.
Além do aditivo,
outra preocupação do sistema de arrefecimento é a válvula termostática. Esse
componente é justamente o que controla o fluxo de fluido do motor para o
radiador constantemente, para que a temperatura do motor fique sempre sob
controle.
Atualmente essa
válvula fica, em geral, dentro de uma carcaça de plástico aparafusada em algum
lugar do motor. E, quando precisa ser substituída, é trocada a carcaça toda,
com ela dentro, já que é comum o plástico ressecar e trincar devido às mudanças
de temperatura no motor.
Substituir a
carcaça da válvula também não é nada sobre-humano. Mas, mais uma vez, requer
sangria do sistema para garantir que ele está todo preenchido com fluido e
livre de bolhas de ar - então é mais uma coisa legal para deixar para o seu
mecânico de confiança fazer.
E se o nível do
fluido baixar?
Por fim, quero
falar de situações de emergência. O sistema de arrefecimento é fechado, o que
significa que não tem para onde esse fluido "evaporar". Esse é o
motivo de não haver necessidade de completa-lo com nada.
Se o nível do
fluido está abaixo da marca de mínimo significa que algo está errado - e
completar só camuflará um problema que precisa ser identificado e resolvido.
Ainda assim, pode acontecer de sofrermos algum acidente em que o fluido vaze e
que precisemos sair do lugar com o carro até chegar num posto de socorro. Numa
situação dessas, é claro que você colocará no radiador qualquer coisa líquida
que estiver ao seu alcance no momento.
Mas é importante saber que, quando chegar à
oficina, será necessário esgotar o sistema todo, fazer uma boa limpeza,
resolver o vazamento e aí então colocar fluido novo, na proporção e
especificações corretas.
Então se você é
desses que gosta de ter um "Kit Apocalipse" no porta-malas do seu
carro (é mais comum do que imaginam e acho super válido), em vez de ter uma
garrafa de água para emergências com o radiador, tenha uma de aditivo diluído
(preparado para uso), que o dano será menor.


Postar um comentário