A habilidade de se comunicar
bem é cada vez mais exigida pelo mercado jurídico como uma das competências
essenciais, não só para prosperar na carreira e nos negócios, mas também para
manter a harmonia e satisfação nos relacionamentos em geral.
E quando se fala de comunicação
não é apenas aquele processo simples que se aprende na escola, em que um
emissor passa uma mensagem por um determinado canal e que chega até o seu
provável receptor. Além de serem "bons de papo", os advogados
precisam dominar a comunicação positiva.
Mas como se fazer compreender e
ser compreendido na advocacia e fora dela? Como dar e receber feedback sem
temer ou se ofender?
É justamente esses dilemas que a Comunicação Positiva se propõe a resolver na
advocacia. E hoje vamos tratar das dinâmicas de fala que mais geram conflitos
entre os colegas, o famoso feedback... e a primeira coisa que
devemos fazer nesse tópico, é diferenciar autenticidade de grosseria, senão,
vejamos:
Autenticidade é o atributo
necessário para um diálogo positivo na advocacia e na vida pessoal. “Autós” em
grego significa a posse, a propriedade, o domínio de si próprio,
portanto, ser autêntico é ter domínio de si.
Advogados autênticos conseguem
manter seu equilíbrio mental e emocional em situações de tensão, conflito ou
crise.
Autenticidade é o
exercício da expressão do que sentimos, pensamos e acreditamos, ou seja, é
SER SINCERO.
Existem situações bem delicadas
que necessitam da nossa máxima sinceridade, mas como tocar em temas inflamáveis
sem ofender as pessoas?
Pedir um aumento. Terminar uma
sociedade. Fazer uma correção sobre o decote da estagiária. Negar um
adiantamento. Discordar do gestor...
Tentamos "fingir
surdência", mas o grilo falante sempre nos recorda de que temos
que falar a verdade. Agora imagine a seguinte situação:
Dra. Ana ouviu, sem querer, sua
sogra dizer aos vizinhos que seus filhos são criados pela babá e que a
mãe só vive para o trabalho, enquanto se prepara para passar as férias na
casa dela...Como ela pode ser sincera sem cometer sincericídio?
É claro que há também os
problemas do dia a dia, que exigem a nossa sinceridade, situações que parecem
mais simples, mas que mesmo assim causam ansiedade: devolver mercadoria
sem um recibo, pedir a sua vizinha que não fume na porta do seu escritório,
devolver o prato que chegou frio à mesa...
Essas são interações que
evitamos o quanto podemos pelo medo de magoar as pessoas ou de sermos
rejeitados posteriormente. Mas temos que ser sinceros, a verdade não nasceu
para ser escondida.
O dilema: Estou
diante de alguém que causou prejuízo a mim ou a outrem, e preciso usar da
sinceridade para expor minha opinião, na intenção de que o equívoco seja
corrigido.
Mas será que a minha fala
(sincera) tem a intenção de corrigir um prejuízo ou apenas busco defender uma
ideia?
A resposta para essa pergunta
faz toda a diferença na construção de um diálogo, podendo torná-lo positivo ou
negativo, a depender da intenção por trás das palavras (sinceras).
Diferente de ser sincero, é ser
sincericida (falar o que pensamos de modo negativo), onde avaliamos o
comportamento, características, pensamentos, falas, atitudes e escolhas de
outras pessoas, normalmente usando um tom de voz alterado, rótulos, sentenças e
condenações que geram um clima tenso e negativo.
A sinceridade é altruísta ao
trazer junto de si a ideia de corrigir com amor. O sincericídio,
por outro lado, é util em produzir mágoas e machucados profundos em nome da expressão
do que pensamos e sentimos sobre o outro.
Dizem que para sermos
honestos não precisamos dizer tudo o que pensamos, mas
nunca dizer o contrário do que pensamos.
Os psicólogos adotaram o termo
sincericídio para definir aquele comportamento pelo qual uma pessoa que
se julga honesta e corajosa,expressa a sua opinião de modo
negativo.
Ser honesto sem se tornar um
sincericida requer muita prática. Implica em colocar-se no lugar da outra
pessoa, sabendo escolher as palavras certas para preservar a relação e o bem
estar de todos os envolvidos.
Isso quer dizer que, para não
machucar os outros, é necessário mentir?
De modo algum. Nenhuma
relação baseada em mentiras pode prosperar.
A melhor atitude é comunicar
honestamente o que precisamos dizer, mas com empatia, encontrando o
momento certo e a forma adequada para expressarmos a nossa opinião.
E, na maioria das vezes, as
nossas opiniões são apenas nossas. Nem sempre são compartilhadas por quem a
escuta, muito menos pela coletividade.
As pessoas que têm boas
habilidades sociais são as que sabem ser sinceras, sem machucar os outros. Não
se trata de mentir, mas sim de transmitir a informação de maneira positiva. A
nossa verdade, transmitida com inteligência e motivada por boas
intenções, será sempre benéfica.
E se examinarmos bem
direitinho, conseguiremos sentir o momento em que nossas “verdades sinceras”
estão sendo armas de ataque. Basta que notemos a nossa escrita (caixa
alta, pontos de exclamações, reticências fora de ordem, as batidas do
coração, a temperatura do corpo, xingamentos, dificuldade de calar, pensamentos
compulsivos, palavras na ponta da língua e um profundo desejo de se impor).
A RAIVA NÃO MENTE
Por mais que queiramos, o AMOR
NÃO PODE SER CONFUNDIDO COM ÓDIO. E nenhum ataque pode ser justificado
em nome da verdade.
Na minha profissão, a segunda
coisa que mais faço é conversar, a primeira é escutar. E atualmente tenho me
espantado com a quantidade pessoas que se queixam de conversas difíceis.
Lidar com grosseria talvez não
seja o forte de ninguém, afinal, quem lida bem com maus tratos?
E como sabermos se estamos
sendo pessoas difíceis de conversar? Eis alguns padrões típicos:
1. Você já percebeu se escuta
os áudios do whatsApp respondendo por partes, antes mesmo de escutá-los até o
fim?
2. Você já notou se interrompe
as pessoas com frequência, como se você tivesse engasgado e precisasse falar
para não explodir?
3. Você já declarou adivinhar
pensamentos?
4. Você já declarou adivinhar a
intenção dos outros?
5. Você já julgou o silêncio
como ataque ou desdém?
6. Você já chamou alguém para a
briga com frases tipo: se você é homem, diga o que pensa na minha cara?
7. Para você, pessoas honestas
falam “na cara” e “sem rodeios”
8. Você se ressente quando
alguém não te elogia?
9. Você critica pessoas quando
elas se afastam do seu convívio?
10. Você costuma afirmar que
não está criticando, mas que apenas está dizendo a verdade?
11. Você costuma dizer que sua
fala é firme e que as pessoas são vaidosas/orgulhosas para se corrigirem?
É muito fácil
confundirmos transparência com agressividade quando nossas convicções
são contrariadas, e a primeira coisa que buscamos fazer após um conflito, é nos
afastar do nosso “opositor”.
No entanto, existem situações
em que o convívio é inevitável, e saber lidar com a conflitos é sinônimo de
inteligência emocional. Mesmo que você não tenha nascido um monge budista,
poderá praticar respostas positivas à ataques pessoais.
GROSSEIRA: PARÂMETROS
De forma bem simples, grosseria
é uma fala que machuca o outro e que não diríamos para
alguém no leito de morte, por exemplo.
Há vários fatores a
considerarmos para avaliarmos uma comunicação como grosseira ou negativa:
Conteúdo – o que se quer dizer,
a escolha das palavras.
Tom de voz – diz respeito à
entonação e ao volume da voz.
Ênfases – são palavras
“escolhidas” que recebem um peso maior ou menor.
Local e hora – também afetam
diretamente a percepção da sinceridade ou da grosseria.
Postura corporal
Grosseria: exemplos
Sincera – Se
você me disse isso ontem, eu não ouvi.
Grosseira – Você
NÃO me disse isso ontem, tenho CERTEZA.
......
Sincera – Eu
não li sua mensagem, estava ocupada.
Grosseira – Eu
não pude ler sua mensagem, mas também, aquele texto imenso.
Veja que há diferença entre EU
e VOCÊ. Quando eu escolho estruturar a minha fala sob o ponto de vista de como
eu percebo, vejo, sinto e interpreto o que o outro fala, então ele não se sente
invadido ou maltratado, porque a comunicação está centralizada na MINHA
compreensão.
Diferente disso é quanto eu
escolho eleger o OUTRO como sujeito absoluto das causas e consequências do
caso, iniciando as frases com "VOCÊ", seguida de avaliações,
conjecturas, acusações e julgamentos moralizadores.
Mas, afinal de contas, como
lidar com falas grosseiras?
Aqui estão alguns exemplos de
respostas que podem funcionar ou não...só testando mesmo
1. “Sua opinião é importante
para mim”
Esta frase permite que a pessoa
perceba que ela é mais importante do que as palavras que estão saindo da sua
boca.
2. “Por que você está me
dizendo isso? "
Você pode usá-la quando a
agressão se torna algo totalmente sem significado, tal como se a pessoa
estivesse falando com outra e não com você.
3. “Você gosta de ser
grosseiro?”
Alguém que é constantemente
rude as vezes nem percebe que está sendo desagradável e pode realmente
ter associado violência a força e proteção.
4. “Você está machucando meus
sentimentos”
Às vezes, a melhor maneira de
revelar um ato grosseiro é mostrar como ele afetou seu sentimento. As vezes a
pessoa realmente não tem compreensão sobre a dor que está causando.
5. “Eu penso que devemos
interromper essa conversa agora”
Usando essa frase você mostrará
que não está gostando da conversa e não quer fazer parte dela, e dará o tempo
necessário para ambos refletirem.
Prezados, a verdade
sempre tem a ver com brilho nos olhos. Quando o que temos nos olhos são
sangue, a verdade já não está presente.

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