Por Percival Puggina*
O que as
urnas de outubro tornaram conhecido, na operosidade das máquinas, não é
diferente do que vimos nos longos corredores e filas de votação, Brasil afora.
Era o povo, consciente de que seu voto deveria proclamar um basta! Era
necessário e só o povo poderia efetivá-lo, jogando a água fria das urnas nas
quatro patas de barro do poderoso belzebu: sigilos, silêncios, censura e
sanções.
“Supremo
é o povo”, proclamavam algumas faixas em recentes manifestações. Naquilo que
chamei de “supremo tribunal do cidadão e sua consciência” era impossível não
sentir – em cada zona eleitoral, seção de votação ou cabine – as teclas sendo
digitadas para expressar a convicção de um eleitor proferindo,
democraticamente, seu veredicto. Do lado oposto, sentavam-se pessoas de carne e
osso, indivíduos reais, sendo julgados pelos próprios excessos cometidos no
manuseio do tabuleiro político. Nunca antes presenciei algo assim.
Aquela
eleição, a já histórica eleição de 2026, apenas num viés secundário julgou
políticos, parlamentares e governantes. Em sua essência, julgou julgadores!
Julgou juízes. Julgou votos monocráticos. Julgou precedentes e jurisprudências.
Julgou casos reais, injustiças reais, abusos reais. Julgou blindagens e
casuísmos, julgou inquéritos sem fim neste mundo. Para salvar o futuro, julgou
o passado.
Tantas
fizeram os autoproclamados “supremos”, que agora tanto faz: de livre vontade,
ocuparam o epicentro de um imenso universo de decisões e consequências. No dia
4, todo voto popular arrastava consigo uma convicção sobre – digamos assim – os
excessos de autoestima e as estratégias políticas majoritárias no Supremo
Tribunal Federal destes últimos anos.
O poder,
seja qual for seu tipo ou fonte, quando escapa dos controles usuais, se torna
uma droga a exigir overdoses crescentes. Uma vez construída a narrativa era
preciso seguir em frente. Quanto mais instáveis se revelassem seus fundamentos,
mais recorrentes eram a coerção, a imposição do medo e as violações de direitos
humanos. Infelizmente, vimos isso acontecer e, assim, qual patas do cavalo de
Átila, a brutalidade foi deixando vítimas pelo caminho. Os autores,
calorosamente aplaudidos em ambientes fechados, mal podiam sair às ruas. Daí os
jatinhos, como cobiçados meios de transporte. Daí o conforto da hotelaria
internacional, como aprazível lugar de estar. Daí as derrotas políticas que o
dia 4 de outubro, simetricamente, impôs aos controladores dos ambientes
controlados.
Os meios de Inteligência Artificial disponíveis ao usuário brasileiro não têm registro histórico de anomalia semelhante à que aconteceu no Brasil. Ministros de uma Suprema Corte ou Tribunal Constitucional assumindo o protagonismo do jogo político, atropelando preceitos, códigos, regimentos e legislação consolidada no país? Impondo obediência aos poderes políticos do Estado com o intuito de preservar o próprio poder de mando, se auto proteger e se blindar? Não, isso só no Brasil.
Eis aí
outra exclusividade nacional, punhado de jabuticabas, colhidas na safra de
2026, para Lula levar a Trump em próxima visita.
(*)
Arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores,
colunista de dezenas de jornais e sites no país. Membro da Academia
Rio-Grandense de Letras. Escreve, semanalmente, artigos para vários jornais do
Rio Grande do Sul, entre eles Zero Hora, além de escrever o seu próprio blog e
em outros websites de expressão nacional, a exemplo do Mídia Sem Máscara,
Diário do Poder, Tribuna da Internet. Sua coluna é reproduzida por mais de uma
centena de jornais.
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