Foto meramente ilustrativa: feita pela de imagens da I.A e qualquer semelhança é mera coincidência
Por Taciano Medrado*
Olá caríssimos leitores,
Há
alianças políticas que levantam questionamentos inevitáveis sobre coerência,
princípios e responsabilidade pública. Quando personagens envolvidos em graves
acusações ou condenações judiciais anunciam apoio a determinados projetos de
poder, a sociedade tem o direito de perguntar: quais interesses estão por trás
dessas aproximações e que mensagem elas transmitem ao eleitor brasileiro?
O caso do
deputado estadual baiano Binho Galinha (Avante), que declarou apoio à reeleição
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reacende esse debate e coloca
novamente em pauta a relação entre política, reputação pública e compromisso
com a ética.
De acordo
com as informações apresentadas, Binho Galinha foi condenado a 36 anos e 9
meses de prisão por crimes relacionados à posse e ao uso ilegal de armas e
munições, no contexto dos desdobramentos da Operação El Patrón. O parlamentar
está preso preventivamente desde 2025 e também é investigado em outra ação
relacionada à suposta atuação de uma organização criminosa na Bahia. O Tribunal
Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA), por sua vez, indeferiu o registro de sua
candidatura à reeleição para a Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA).
Apesar
desse cenário, o deputado recebeu mais de 23 mil votos no primeiro turno das
eleições, realizados em 4 de outubro, embora os votos tenham sido registrados
como anulados sub judice. É importante registrar que a defesa contesta as
acusações e questiona decisões relacionadas aos processos. Em um Estado
Democrático de Direito, o contraditório e a ampla defesa precisam ser
respeitados, assim como as decisões judiciais devem ser observadas.
Quando
o apoio político se torna um problema de imagem
A questão
central deste episódio não é o direito de Binho Galinha de manifestar sua
preferência política. Esse direito, como o de qualquer cidadão, deve ser
respeitado nos limites da legislação. O questionamento é de natureza política: que
significado assume uma aliança eleitoral quando um dos personagens envolvidos
carrega um histórico judicial tão grave?
O apoio
de uma pessoa investigada ou condenada não transforma automaticamente o
candidato apoiado em cúmplice de seus atos. Da mesma forma, uma declaração de
apoio não comprova que exista qualquer acordo ilícito entre as partes. Seria
irresponsável afirmar o contrário sem provas.
Entretanto,
a política também é feita de símbolos, gestos e escolhas. Quem disputa a
Presidência da República precisa compreender que suas alianças são observadas
pela sociedade e podem gerar cobranças legítimas sobre os critérios adotados
para ampliar sua base de apoio.
É nesse
ponto que o lulopetismo — expressão utilizada por críticos para identificar o
movimento político em torno de Lula e do PT — precisa ser submetido ao mesmo
escrutínio público aplicado a qualquer outra corrente ideológica. Nenhum
partido, líder ou projeto político pode reivindicar imunidade diante de
questionamentos éticos.
O
preço da conveniência eleitoral
Na
disputa pelo poder, ampliar apoios pode ser uma estratégia legítima. O problema
surge quando a busca por votos parece se sobrepor à necessidade de estabelecer
critérios claros de integridade pública.
A
pergunta que precisa ser feita não é se alguém tem o direito de apoiar Lula.
Tem. Tampouco é se o presidente deve responder automaticamente pelos atos de
quem declara apoiá-lo. Não deve. A pergunta é outra: quais compromissos
éticos devem orientar a construção de alianças políticas e até onde vai a
responsabilidade pública de quem as recebe e celebra?
Essa
cobrança não pode ter dois pesos e duas medidas. Se o apoio de uma figura
controversa a um adversário político é tratado como motivo de indignação, o
mesmo critério deve ser aplicado quando o beneficiário é o candidato preferido
de quem faz a crítica.
A
coerência política começa quando os princípios não mudam conforme a
conveniência partidária.
O
eleitor não pode abrir mão do senso crítico
Os mais
de 23 mil votos recebidos por Binho Galinha, mesmo com a candidatura barrada e
em meio aos desdobramentos judiciais mencionados, também suscitam uma reflexão
sobre a relação entre representação política, fidelidade eleitoral e confiança
nas instituições.
O eleitor
tem liberdade para escolher seus representantes, mas essa liberdade ganha força
quando acompanhada de informação, consciência e responsabilidade. Votar não
deve ser um ato de submissão a lideranças, sobrenomes ou estruturas políticas.
Deve ser uma decisão consciente sobre quem merece exercer o poder público.
A
democracia não exige unanimidade, mas exige vigilância. Não exige que
adversários políticos concordem entre si, mas exige que todos estejam sujeitos
à cobrança pública e às regras da Justiça.
Princípios acima das conveniências
Por fim, o episódio envolvendo Binho Galinha e sua declaração de apoio a Lula não autoriza
concluir, por si só, que exista cumplicidade entre o presidente e o deputado.
Também não permite atribuir ao conjunto dos eleitores de qualquer partido as
condutas de uma figura política específica.
O que ele
permite — e exige — é um debate sério sobre os limites éticos das alianças
eleitorais, a responsabilidade dos líderes e a necessidade de critérios
consistentes para avaliar quem se aproxima de quem no jogo político.
O
lulopetismo, assim como qualquer outra corrente política, deve responder por
suas escolhas e explicar suas alianças quando houver razões concretas para
questioná-las. Não basta falar em democracia, justiça social ou defesa das
instituições: é preciso demonstrar coerência entre o discurso e a prática.
Na
política, o apoio de alguém não condena automaticamente quem o recebe. Mas a
maneira como esse apoio é tratado pode revelar muito sobre os critérios, as
prioridades e os compromissos de quem disputa o poder.
Porque, em uma democracia madura, nenhum líder está acima das perguntas, nenhum partido está imune à crítica e nenhum eleitor deveria aceitar que a conveniência eleitoral valha mais do que a ética pública.
(*) Professor, analista político e redator chefe do TMNews do Vale
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