Lula
tenta demonstrar força política recorrendo a estudantes universitários como
massa de manobra , enquanto universidades são colocadas no centro do embate
ideológico
Por
Taciano Medrado*
O cenário
político brasileiro volta a ser marcado pela polarização, e os movimentos de
mobilização estudantil entram novamente no centro do debate público. Em meio à
disputa pelo poder, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva busca demonstrar
capacidade de mobilização e sustentação política, recorrendo a manifestações e
atos que contam com a participação de estudantes universitários e de setores
historicamente próximos ao Partido dos Trabalhadores (PT).
O que
precisa ser questionado, entretanto, é se essas mobilizações representam, de
fato, uma demonstração espontânea de força popular ou se refletem a atuação de
grupos organizados que compartilham a mesma orientação ideológica do governo.
Universidades:
espaços de conhecimento ou palanques ideológicos?
As
universidades brasileiras nasceram com a missão de produzir conhecimento,
estimular o pensamento crítico e formar profissionais preparados para os
desafios da sociedade. São espaços que devem acolher a pluralidade de ideias, o
debate democrático e a liberdade de pensamento — princípios que não podem ser
subordinados aos interesses de partidos políticos, sejam eles de esquerda ou de
direita.
Entretanto,
quando setores do movimento estudantil passam a atuar prioritariamente como
instrumentos de mobilização partidária, surge uma questão legítima: onde
termina a militância política e começa a instrumentalização do ambiente
acadêmico?
A crítica
não se dirige aos estudantes que, por convicção própria, defendem o governo
Lula ou qualquer outra corrente política. A participação política é um direito
democrático. O problema aparece quando a universidade deixa de incentivar o
confronto respeitoso entre ideias divergentes e passa a ser percebida como um
ambiente de pensamento único, no qual determinadas posições são exaltadas e
outras tratadas com hostilidade.
Uma
universidade verdadeiramente democrática não deve formar militantes obedientes
a uma ideologia, mas cidadãos capazes de questionar, analisar evidências e
construir suas próprias convicções.
O
fantasma da perda de apoio político
Em um
ambiente de forte disputa eleitoral, manifestações públicas também são
utilizadas como demonstrações de força. Fotografias de multidões, discursos
inflamados e palavras de ordem podem transmitir a impressão de que determinado
grupo mantém amplo respaldo social.
Mas é
preciso distinguir mobilização organizada de apoio eleitoral efetivo. A
presença de estudantes em um ato político não significa, automaticamente, que a
maioria dos universitários compartilhe daquela posição. Da mesma forma, uma
manifestação expressiva não substitui pesquisas eleitorais metodologicamente
consistentes nem comprova, por si só, a dimensão do apoio popular a um governo.
O chamado
lulopetismo, expressão frequentemente utilizada por seus críticos para
caracterizar a influência política do lulismo e do PT, enfrenta o desafio de
convencer a sociedade de que ainda possui capacidade de liderança e de
mobilização. Essa avaliação, porém, deve ser feita com base em fatos
verificáveis, e não apenas na dimensão visual dos atos públicos.
Em uma
democracia, nenhum governante deveria confundir aplausos de seus apoiadores com
aprovação unânime da população.
A
juventude não pertence a partido algum
Outro
ponto fundamental é reconhecer que os estudantes brasileiros não constituem um
bloco político homogêneo. Há jovens de esquerda, de direita, de centro e
aqueles que rejeitam as divisões partidárias tradicionais. Todos têm o mesmo
direito de participar do debate público, defender suas ideias e contestar os
governantes.
A
juventude não pode ser tratada como propriedade eleitoral de qualquer partido.
Tampouco deve ser reduzida a uma massa de manobra, seja por organizações de
esquerda, seja por grupos de direita.
O papel
da educação é justamente oferecer instrumentos para que cada estudante
desenvolva autonomia intelectual. Quando a divergência é substituída pela
intimidação, pelo sectarismo ou pela desqualificação automática do adversário,
perde-se uma das funções essenciais da formação acadêmica.
O
Brasil precisa de ideias, não de encenações políticas
O Brasil
atravessa um período de intensas disputas políticas, no qual discursos,
manifestações e estratégias de comunicação ganham grande visibilidade. Nesse
contexto, cabe à sociedade observar com atenção os movimentos de todos os
grupos políticos, sem abrir mão do senso crítico.
Se Lula
pretende demonstrar força, o caminho mais consistente não é apenas reunir
apoiadores em atos públicos, mas apresentar resultados concretos, prestar
contas de sua administração e convencer os brasileiros de que suas propostas
respondem às necessidades do país.
Da mesma
forma, cabe à oposição fiscalizar o governo com responsabilidade, apresentar
alternativas e evitar que a crítica política se transforme em mera troca de
slogans.
A
democracia não se mede pelo volume das palavras de ordem, pela quantidade de
bandeiras levantadas ou pela capacidade de ocupar espaços públicos. Mede-se
pela liberdade de discordar, pela transparência, pelo respeito às instituições
e pela capacidade de oferecer respostas aos problemas reais da população.
No fim
das contas, a força de um governo não se prova pela mobilização de seus
militantes, mas pela confiança que consegue conquistar junto à sociedade. E essa confiança não
se impõe pela propaganda: precisa ser construída, diariamente, por meio de
ações, resultados e respeito à liberdade de pensamento.
(*) Professor, analista político e redator chefe do TMNews do Vale - a informação que aproxima sem meias verdades
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