Por Taciano Medrado*
O caso envolvendo a direção-geral da Polícia Federal ultrapassou os limites de uma simples divergência jurídica. O que se viu nos últimos dias foi um verdadeiro cabo de guerra dentro do Supremo Tribunal Federal, com decisões de ministros apontando para lados opostos e revelando uma Corte cada vez mais exposta às suas próprias contradições.
E, nesse tabuleiro, Flávio Dino fez um movimento que, pelo resultado final, deu certo.
Primeiro, o ministro André Mendonça determinou o afastamento de Andrei Rodrigues da direção-geral da Polícia Federal. A decisão ganhou respaldo dentro da Segunda Turma do STF, aumentando o peso institucional da medida.
Mas Dino entrou no jogo e tomou uma decisão em sentido contrário: determinou a reintegração de Rodrigues ao comando da PF.
A partir daquele momento, o que estava em discussão deixou de ser apenas o destino de um delegado. Passou a envolver uma questão muito maior: quem, dentro do Supremo, teria a última palavra sobre o comando de uma das instituições mais importantes da República?
Dino fez sua jogada.
E o que aconteceu depois é o que torna o episódio politicamente relevante.
O presidente do STF, Edson Fachin, acabou suspendendo a decisão de Mendonça e mantendo, na prática, o caminho aberto pela decisão de Dino.
Xeque.
Não estamos afirmando que houve combinação, articulação prévia ou qualquer tipo de acordo entre ministros. Não há elementos públicos suficientes para sustentar essa afirmação. Mas também seria ingenuidade ignorar a dimensão estratégica do episódio.
Dino assumiu uma posição, colocou sua decisão no centro do debate e, ao final, viu sua interpretação prevalecer.
É assim que funciona o jogo de poder: nem sempre vence quem faz mais barulho; muitas vezes vence quem consegue enxergar alguns movimentos à frente.
E Dino parece ter entendido muito bem o ambiente.
O STF virou palco de disputas internas?
Essa é uma pergunta que não pode mais ser ignorada.
Quando um ministro determina o afastamento de uma autoridade, outro ministro determina sua reintegração e, posteriormente, o presidente da Corte interfere para suspender uma das decisões, a sociedade tem o direito de perguntar:
Onde termina a independência judicial e começa a disputa interna de poder?
O Supremo Tribunal Federal precisa ser visto como uma instituição colegiada, previsível e juridicamente coerente. Afinal, não estamos falando de uma disputa política comum, mas da Corte constitucional máxima do país.
Quando decisões individuais parecem se sobrepor umas às outras, a consequência inevitável é o aumento da desconfiança da sociedade.
E esse talvez seja o aspecto mais preocupante de todo o episódio.
Dino sai fortalecido
Independentemente das interpretações políticas, existe um fato objetivo: a decisão de Dino prevaleceu no resultado concreto.
Andrei Rodrigues permaneceu na direção-geral da Polícia Federal.
Mendonça perdeu, naquele momento, o efeito prático de sua decisão.
Dino viu sua decisão prevalecer.
E Fachin acabou funcionando como o fiel da balança.
É difícil olhar para essa sequência e não perceber que Dino saiu politicamente fortalecido do episódio.
Mais do que isso: o ministro demonstrou que sabe ocupar espaços de poder dentro de uma Corte marcada por diferentes correntes, posições e estratégias.
A Polícia Federal no centro do conflito
O problema é que, no meio desse embate, está uma instituição de Estado: a Polícia Federal.
A PF não pertence a ministro, governo, partido ou grupo político. Sua missão constitucional exige autonomia, profissionalismo e respeito à lei.
Por isso, qualquer disputa envolvendo diretamente o comando da instituição precisa ser tratada com extremo cuidado.
Não se pode permitir que a população tenha a impressão de que o comando da Polícia Federal está sendo utilizado como peça de um jogo de poder entre integrantes da própria Suprema Corte.
Porque, se essa percepção se consolidar, o prejuízo não será apenas para um ministro ou outro.
Será para a credibilidade das instituições brasileiras.
No fim, Dino conseguiu
No xadrez político-institucional, existem movimentos que parecem arriscados quando são realizados, mas que se revelam vencedores quando o tabuleiro termina de se movimentar.
Foi exatamente isso que aconteceu com Dino?
Não podemos afirmar.
Mas podemos constatar o resultado.
Mendonça afastou. Dino reintegrou. Fachin suspendeu o afastamento. E Andrei Rodrigues permaneceu no comando da Polícia Federal.
A conta final, portanto, favoreceu Dino.
E talvez essa seja a principal lição desse episódio: em Brasília, nem sempre a decisão mais forte é aquela que produz mais manchetes no primeiro momento. Às vezes, a verdadeira estratégia está em saber qual movimento fazer — e, principalmente, saber quem poderá fazer o movimento seguinte.
No caso da direção-geral da PF, Dino fez o seu.
E, até aqui, deu certo.
O episódio, entretanto, deixa uma pergunta no ar:
Quem realmente está dando as cartas nesse novo capítulo da Suprema Corte?
(*) Taciano Medrado é redator-chefe do TMNews do Val - a informação que aproxima sem meias verdades
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