(*) Teobaldo Pedro
Brasília volta a pulsar como epicentro de transformações intensas e nem sempre visíveis à superfície. Os sinais são muitos, os sintomas são claros e a história parece repetir seus ciclos, embora jamais do mesmo modo. As estruturas institucionais estão sendo testadas em sua resistência e elasticidade, enquanto pressões internas e externas pressionam os alicerces do sistema. Não se trata de histeria ou especulação. Trata-se de reconhecer que os movimentos subterrâneos da política nacional já causam tremores perceptíveis. E quando as placas tectônicas se movem com força suficiente, a erupção é apenas uma questão de tempo.
Os efeitos do realinhamento geopolítico global chegaram ao Brasil com força renovada. A imposição de tarifas norte-americanas durante o governo Trump, voltadas especialmente contra o agronegócio brasileiro, redesenhou alianças e revelou uma vulnerabilidade estratégica pouco enfrentada até então. A retórica de soberania nacional esbarrou na dependência econômica de mercados externos, e os sinais dessa fragilidade ecoam ainda hoje, intensificados por incertezas diplomáticas e comerciais.
Ao mesmo tempo, o tensionamento institucional atinge níveis preocupantes. O Supremo Tribunal Federal se consolidou como ator central da vida política nacional, frequentemente intervindo em campos onde o debate deveria ser essencialmente legislativo ou político. A figura do ministro Alexandre de Moraes, ao assumir protagonismo em processos polêmicos, tornou-se símbolo tanto de firmeza institucional quanto de controvérsia jurídica. A repercussão internacional de sua atuação ultrapassou as fronteiras do debate doméstico. A evocação da Lei Magnitsky por parlamentares americanos contra autoridades brasileiras não deve ser subestimada. Mesmo que se trate de gesto político e ainda sem consequências diretas, o episódio projeta o Brasil em um cenário de desconfiança crescente sobre os limites entre autoridade e abuso.
A prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, cuja legalidade será naturalmente objeto de discussão nos tribunais, somou mais lenha ao cenário já inflamável. Para uns, é o cumprimento rigoroso da lei. Para outros, trata-se de perseguição política e manipulação judicial. O que se vê, no entanto, é a intensificação de uma polarização que bloqueia consensos, engessa reformas e fragiliza a coesão nacional. Os protestos que se seguiram, ainda que minoritários, revelam que há faíscas em brasas que não se apagaram.
Do ponto de vista econômico, a situação exige cautela. A percepção de instabilidade institucional afeta diretamente os fluxos de investimento e compromete o ambiente de negócios. A paralisia de reformas estruturais e a judicialização crescente das disputas políticas reduzem previsibilidade e alimentam insegurança jurídica. O capital, como a história ensina, é avesso ao conflito prolongado e à incerteza crônica. O custo da instabilidade é, portanto, real e mensurável.
Diante desse panorama, torna-se imperativo reforçar o compromisso com o Estado Democrático de Direito. A democracia brasileira é jovem, mas não é frágil. O que a enfraquece não são os embates em si, mas a incapacidade de arbitrá-los com equilíbrio e respeito mútuo. A atuação das instituições deve se pautar pelo rigor legal, mas também pela prudência política. O excesso de protagonismo de qualquer Poder, seja Executivo, Legislativo ou Judiciário, desequilibra o sistema e mina a confiança coletiva.
É hora de baixar o tom, repactuar o convívio republicano e restaurar os canais legítimos de mediação e escuta. A política precisa voltar a ser espaço de construção, e não apenas de denúncia. O Judiciário deve continuar exercendo seu papel com firmeza, mas sem descuidar dos limites que a Constituição lhe impõe. O Parlamento precisa recuperar sua autonomia e liderança no debate das grandes reformas. E o Executivo, seja qual for sua orientação, tem a obrigação de governar para todos, com responsabilidade, respeito institucional e abertura ao diálogo.
As placas tectônicas da política se movem em silêncio antes de provocarem grandes abalos. O momento exige sabedoria, contenção e visão de futuro. Democracias não caem apenas por golpes declarados, mas também pela corrosão lenta e contínua de sua credibilidade. Que os tremores que se anunciam sirvam de alerta e não de prelúdio para um colapso. Porque as erupções, quando vêm, não costumam escolher culpados ou inocentes.
(*) Pastor, teólogo, educador, filósofo e psicanalista. Juazeiro Bahia
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