O SURTO DE MORAES


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Por Taciano Medrado*

O Supremo Tribunal Federal (STF) chega à sessão do próximo dia 15 de setembro mergulhado em mais uma crise interna. Desta vez, o centro da controvérsia é o conteúdo extraído do celular de Daniel Vorcaro, material que está sob custódia da Polícia Federal e que poderá lançar novas luzes sobre as relações e conversas que deram origem a um relatório da própria PF.

E, diante desse cenário, uma pergunta começa a ganhar força nos bastidores e entre aqueles que acompanham o caso:

Por que o simples acesso dos ministros ao conteúdo integral do celular se transformou em uma disputa tão acirrada dentro do Supremo?

O ministro Cristiano Zanin pediu acesso integral aos dados. A justificativa parece, à primeira vista, elementar: se todos os ministros participarão de uma decisão, todos deveriam ter a mesma oportunidade de conhecer as provas que serão analisadas.

Mas o ministro André Mendonça decidiu manter lacrada e intocada a cópia dos dados encaminhada pela Polícia Federal ao seu gabinete. O aparelho original permanece sob custódia da PF.

A reação de Alexandre de Moraes foi imediata. O ministro reforçou o pedido de Zanin e defendeu que o conteúdo seja disponibilizado aos demais integrantes da Corte.

É justamente aí que a situação começa a ficar politicamente e institucionalmente delicada.

O celular que pode mudar a narrativa

O relatório da Polícia Federal registra conversas envolvendo Moraes e Vorcaro. Mas uma coisa é conhecer a interpretação feita pela investigação; outra, completamente diferente, é ter acesso ao conteúdo original das informações que serviram de base para o relatório.

O celular poderá confirmar as conclusões apresentadas pela PF.

Poderá também apresentar outro contexto para determinadas conversas.

E poderá, eventualmente, revelar novos elementos, personagens ou interlocutores.

Enquanto o conteúdo não for analisado integralmente, ninguém pode afirmar qual dessas possibilidades prevalecerá.

E é exatamente por isso que a transparência deveria ser o caminho natural.

O que há para esconder?

Aqui entra a pergunta incômoda deste editorial:

Se o conteúdo é apenas mais uma peça de prova, por que impedir ou dificultar que todos os ministros tenham acesso a ele?

Não se trata de condenar antecipadamente ninguém.

Não se trata de transformar uma suspeita em sentença.

Trata-se simplesmente de permitir que os julgadores conheçam diretamente a prova que poderá influenciar uma decisão envolvendo, inclusive, a atuação de um dos próprios integrantes da Corte.

Respeito á cadeia de custódia

Mendonça argumenta que é necessário preservar a integridade da prova e sua cadeia de custódia. É uma preocupação legítima e que precisa ser respeitada.

Zanin, por outro lado, entende que o fato de a cópia estar lacrada não impediria seu compartilhamento com os demais ministros, especialmente diante da proximidade da sessão e da informação de que os advogados de Vorcaro já tiveram acesso ao material.

Fachin no centro do furacão

Agora, a responsabilidade está nas mãos do presidente do STF, Edson Fachin.

Caberá a ele administrar uma situação que ultrapassa uma simples divergência processual.

A questão envolve credibilidade institucional, transparência, equilíbrio entre os ministros e, principalmente, confiança da sociedade na Suprema Corte.

O STF não pode permitir que uma disputa interna produza a impressão de que existem provas que alguns podem conhecer e outros não.

Muito menos quando o material poderá ter relação com uma discussão que envolve a própria atuação de um ministro.
A sociedade quer respostas

O cidadão brasileiro não acompanha esse episódio como quem assiste a uma simples disputa entre ministros.

O que está em jogo é algo maior: a confiança nas instituições.

A sociedade tem o direito de perguntar.

Tem o direito de desconfiar.

E tem, sobretudo, o direito de exigir que decisões de tamanha importância sejam tomadas com base em provas acessíveis aos julgadores e dentro das regras do devido processo legal.

Por isso, a pergunta permanece:

O que há, afinal, no celular de Daniel Vorcaro?

A resposta poderá estar a apenas alguns cliques de distância — desde que aqueles que precisam julgar tenham autorização para olhar.

Até lá, o episódio continuará alimentando suspeitas, especulações e uma crise que o STF certamente preferiria não enfrentar.

Porque, no fim das contas, quando a transparência vira motivo de disputa, a sociedade tem todo o direito de perguntar: quem tem medo de olhar?

(*) redator chefe do TMNews do Vale – a informação que aproxima com credibilidade e sem meias verdades 
    

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